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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Faltando um pedaço

Nunca pensei que uma pia de cozinha pudesse fazer tanta falta.
Hoje bem cedo o interfone tocou, era o Seu Chaves... veio tirar a pia, lembra, a minha está em petição de miséria, estava, não está mais!
Estava, a coitada, com o prazo de validade vencido, já era hora de dar um jeito nela, não havia mais remédio, a remoção foi a única salvação.
O Chaves chegou munido de sua marreta, em poucos minutos a pia estava "na chõm".
O chato, para mim, é que ele chegou muito cedo, mas em compensação eu pude retribuir a delicadeza da vizinhança, que se preocupa em me acordar, todos os dias antes do meu despertador tocar.
Tive vontade de dar uma espiada para ver se a vizinha de cima ainda estava dormindo... mas apesar de estar no piso inferior, eu sou uma pessoa elevada, sugeri ao Chaves usar toda aquela força, não economizar marteladas!!!
Na verdade me senti um pouco, só um pouco incomodada, mas nada que me tire o apetite, o sono, nada de pia, nada de louça, é assim que as coisas funcionam, jamais iria sujar um prato que fosse apenas para ter que ficar de pé fazendo a digestão, lavando louça no tanque de lavar roupas!
O Chaves é metido mesmo, veio me sugerindo, afinal estou trocando a pia, o gabinete e as portas dos armários, que eu troque os azulejos... vai esperando, Chaves.
O caso é que eu fico querendo apoiar as coisas na pia, cada vez que eu entro na cozinha acho que está faltando alguma coisa!
O cérebro da gente é uma coisa muito doida, claro que eu sei que a pia foi para o cemitério das pias, então por que me assusto cada vez que não encontro a pia no lugar?
Por enquanto estou calma, vou ficar nervosa, amanhã, lá pela hora do almoço, afinal o marmorista vem instalar a pia nova (tão linda de granito corumbá), depois do almoço. Até lá vou curtir momentos longe dos afazeres culinários!

domingo, 9 de janeiro de 2011

O morro dos ventos uivantes

Desde de sempre, um traço marcante no lugar onde mora minha mãe é a força do vento. Há uma conjunção de fatores, o tamanho e quantidade de janelas, o peso das portas e o vasto horizonte que se abre livre, não há nada que possa amenizar as rajadas frequentes.
Eu sou vizinha da minha mãe, mas aqui o vento não uiva.
Sempre foi assim, quando vem um vento mais forte, as portas batem, e ouve-se várias portas batendo, de diversos andares, às vezes, a força do vento é tal que há quem enjoe com tanta turbulência.
Outra curiosidade desses apartamentos é que as maçanetas são dotadas de travas fixas, é só virar o "botão" e a porta tranca, é prático mas ninguém pode se descuidar, às vezes o vento bate a porta e a chavinha está virada e pronto! A porta tranca. Claro que é só ter a chave reserva guardada em um lugar conhecido que não existe problema!
Acontece que lá em casa, o tal molho com todas as chaves nunca estava no lugar certo, às vezes estava trancado do lado de dentro da porta, outras estava tão bem guardado que ninguém encontrava, quando encontrava a única chave que não estava com todas as outras era a chave da tal porta.
Colecionamos histórias de arrombamentos cinematográficos, com gente para dentro, com gente para fora, com gente dormindo, as diversas soluções quase sempre envolveram medidas extremas com descarte do que restou da porta.
Outro dia, num dia de semana, minha sobrinha esteve na casa da minha mãe e o vento deu uma "bufada", surpresa a porta bateu! Outra surpresa, trancou! Minha mãe, toda espertinha ligou para o porteiro, ele subiu com uma radiografia na mão, em dois segundos ele abriu a porta! Ai, se nós soubéssemos desse truque!
Hoje, ao chegar lá minha mãe contou que a porta de um dos quartos estava trancada, e por alguma razão, que eu não entendi, chamariam o porteiro só amanhã.
Eu contei para o meu pai que eu tinha visto o porteiro abrir a porta com a radiografia, pois sei que ele com um pouco de "know-how" é capaz de fazer coisas incríveis, então ele procurou uma radiografia, não havia nenhuma a disposição, vai ver estivessem trancadas, pegou um plástico grosso, e nada, ofereci um cartão de crédito, afinal, qualquer detetive de Hollywood abre portas com cartões, quem sabe, ele tentou, tentou e nada.
Ele desistiu, chamaria o porteiro, amanhã... fiquei desiludida, afinal sempre julguei que nada seria impossível para o meu pai, peguei o cartão para ver como aquilo poderia funcionar.
Encaixei, sem dó, o cartão na fresta da porta, meu pai tinha dito que o cartão tinha que "fazer a curva" e empurrar a lingueta, eu fiz a curva com o cartão e puxei o cartão para baixo até alcançar a lingueta, conforme a explicação do meu pai.."tchanan!" Como num passe de mágica a porta se abriu!
Que sensação interessante! Eu só estava vendo como a coisa funcionava, jamais imaginei conseguir!
Quanta coisa deixamos de fazer, ou pelo menos tentar, por se supor incapaz?
Fica ai uma lição - Antes de desistir, pelo menos experimentar!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A vizinhas

Não sei qual era sua idade, mas parecia ser bem velhinha. Dona Isaura era a avó da Babu e da Keka, nossas vizinhas do lado. Era também, um tanto minha avó.
Era viúva e morava com a filha. Sempre vestida com discrição, saia de lã cinzenta, casaquinho de tricô, um camafeu fechando a camisa e o mais interessante eram as meias da dona Isaura, diferente de todas as outras meias que eu já havia visto, minhas avós não usavam aquelas meias, presas nas pernas por um elástico bem forte, parecia que prendia a circulação!
Era a dona da casa em exercício, lidava com a cozinha e tudo mais, até do Kuki, o cãozinho da família, ela cuidava.
Dona Isaura era uma figura presente na nossa vida, vira e mexe, quando minha mãe tinha dúvidas sobre algum assunto culinário, subia num banquinho e chamava Dona Isaura por cima do muro, queria saber o ponto de uma massa, a receita de um assado, era tudo com Dona Isaura.
Dona Isaura conversava com a gente, e como lá em casa não tinha telefone, quando alguém ligava ela vinha nos chamar, às vezes por cima do muro, às vezes não.
Esses dias lembrei da Dona Isaura. Talvez por ter passado ali no que sobrou da rua em que morávamos.
Ela contava que quando era pequena, ia com seus irmãos tomar banho no Tejo, ela morava longe e para chegar lá era preciso andar bastante, como se fosse dali onde estávamos, no Itaim até o Morumbi.
Dali onde estávamos, era possível enxergar parte o do tal do Morumbi.
Parecia tão distante, tão intocável, aquela montanha verde no horizonte, uma ou duas casas bem grandes na encosta.
Hoje, do lugar onde eram essas casas já não se pode avistar nem um pouquinho do Morumbi, mas eu sei que do muro onde ficávamos sentadas, víamos uma parte da Avenida Oscar Americano, onde fica o Hospital São Luis, e nem é assim tão longe...
O que fica mesmo é a lembrança daquela avó postiça tão atenciosa que morava ao lado.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Vizinhança Indesejada

Tempos difíceis, não é exagero. Acho que as variações de humor que estou tendo, são fruto da atual circunstância.
Há uns meses foi a vez da pintura da fachada, momentos inesquecíveis, achei que os latidos estridentes da minha pequena Pintcher era o ruído mais insuportável possível, eu estava errada!
Quando mudamos para o bairro eu ainda menina, em 1976, era como se tivéssemos mudado para o fim-do-mundo, ninguém sabia onde era e ainda assim diziam ser muito longe.
Não havia vizinhança, não havia padaria, não havia farmácia, não havia supermercado, pela janela era possível avistar o Taboão da Serra, havia na época, uma única linha de ônibus que passava por aqui. Se não era o fim-do-mundo, era próximo. O silêncio imperava. Todo dia, uma boidada passava pela rua que ainda não era asfaltada.
Aos poucos o bairro cresceu, o comércio prosperou, agora há de tudo, até shopping center, vários, com banco, supermercado e até restaurante bacana ! Que maravilha!
Quando casei e vim morar nesse apartamento aqui, era muito silencioso, não se ouvia nenhum tipo de ruído, ouvíamos os grilos. Aos poucos a civilização veio nos alcançando, ruas foram abertas, e passamos a ouvir os rumores próprios da grande cidade. Eu moro na maior cidade do hemisfério rio sul, o silêncio mais próximo fica, mais ou menos há uns 80 quilômetros daqui, eu sei.
O progresso tem seus percalços, e agora, aqui ao lado, num terreno que ficou esquecido durante muitos anos, onde morava pica-paus, bem-te-vis e outras aves, estão levantando um "edifício alto", com todas as comodidades da vida moderna, com Lan-House" e tudo!
A questão não é o edifício, a questão é a invasão.
A construção de um edifício, parece só respeitar os prazos de entrega, por isso o horário das obras é de 7:00 às 18:00. Tudo marcado pelo som de uma sirene, que, no meu caso, eu aposto , está instalada apontada para a minha janela.
Tenho a sensação que, de manhãzinha, os operários não podem ver, uma janela, se quer, fechada, eles sabem que por trás de uma janela fechada há uma pessoa dormindo, então capricham, são marteladas, a serra funcionando, são tábuas jogadas sem preocupação, além dos gritos e cantorias. São pontuais, quanto mais cedo, mais barulhentos são, me parece que eles fazem mais barulho bem cedinho, depois eles acalmam. No meu prédio boa parte dos moradores são pessoas da terceira idade, então eu suspeito, que, além da surdez própria da idade, também não são atingidos pelo barulho matutino, pois acordam mais cedo que a sirene.
Quando as férias começaram eu estava muito animada com a possibilidade de me levantar num outro ritmo, mais civilizado, que engano! Acho que vou acertar meu despertador para meu horário habitual, 6:00 da manhã, assim, quem sabe, na hora que o barulho começar eu já esteja pronta! Talvez um tampão? Vou pensar na possibilidade.
Não sou eu que vou impedir o crescimento do bairro, mas eles podiam maneirar. Além de todo barulho próprio da obra, também os ruídos atraídos pelo movimento, são carros de pamonha e outros quitutes derivados do milho, sorveteiros etc e tal.
Eles já estão incomodando, podiam desistir e fazer barulho em outra freguesia, estou considerando aguentar uma obra parada...