quarta-feira, 3 de março de 2010

Pedregulhos da vida

Pelo que parece, aquele era um sábado festivo, a família e amigos em geral viriam para um churrasco.
Ainda era cedo, o sol brilhava preguiçoso, a casa já estava em ordem, a patroa, que contava com a ajuda de duas empregadas, supervisionava o serviço de uma na cozinha, a outra estava com todas as crianças.
Sábado também era dia de basquete, o marido já estava na quadra.
O combinado era um pulo na piscina antes dos convidados chegarem, as crianças, animadíssimas já esperavam no carro, os meninos na frente, brincando de dirigir, as meninas atrás, provavelmente sonhando com alguma carruagem, a moça que olhava as crianças, do lado de fora, sentada na beirada ao lado do menino.
A casa ficava numa colina, a rua levemente íngreme, exigia que os carros fossem estacionados com o freio de mão acionado e a direção esterçada.
Além da animação com a piscina, havia outro motivo para tanto frisson, dessa vez, e por isso estavam brincando nele, o carro estacionado não era um ovo disfarçado de automóvel, nem alguma carroça motorizada, como era o costume, dessa vez, estacionado ali era o carro do avô, um automóvel de diretoria, no maior luxo, direção hidráulica, todo revestido, muito couro e veludo, diferente dos carros que costumavam frequentar, era um carro cheio de nove horas, até o freio de mão era afrescalhado, facilmente acionado com apenas dois dedos!
O menino que brincava de dirigir, tanto fez, tanto fuçou que conseguiu soltar o tal do freio.
A empregada, coitada, até que tentou segurar o bichão com suas próprias mãos, o carro começou a deslizar ladeira a abaixo, sem se abalar com a força que ela fazia.
Bateu aquele desespero, gritos e gemidos, lá no banco de trás as meninas, de maiô e saída de banho, não tinham que fazer. O carro começava a desenhar uma curva em direção ao outro lado da rua, boa opção, afinal ali havia, no jardim da dona Lhuba, um grande barranco, melhor que seguir em direção ao pé do morro onde ficava a garagem do Seu Iguatemi, nosso vizinho de baixo.
Foi nessa hora, imaginem só, a menina que estava do lado esquerdo do carro entrou em pânico, medrosa que só, tinha medo de tudo, logo imaginou algum acidente cinematográfico, com medo de um incêndio, afinal, essa nem era uma possibilidade tão distante, resolveu pular fora, literalmente, abrir a porta e "pluft", e foi exatamente isso que fez, "pluft".
Pois é, nessa hora a mãe vinha saindo da casa e viu a cena, talvez alertada pelos gritos e gemidos.
A filha se estatelando na rua coberta de terra, muito cascalho e pedregulos, o carro seguindo o caminho em direção ao morro, a filha toda ensanguentada e ela lá paralizada, sem muito que fazer.
No mesmo instante vizinhos apareceram, vieram socorrer as crianças, a mãe e até quem sabe averiguar o prejuízo no carro e o estrago no morro.
Alguém avisou lá na quadra, até quiseram dar carona para o pai que jogava basquete, mas ele preferiu correr!
Num instante estava em casa tomando as providências, já haviam manobrado o carro, quase imediatamente estava no hospital com a filha, essa história é tão velha que o Hospital Novo nem tinha sido construído.
Depois de limpar todo o sangue espalhado pelo corpo da criança, a equipe médica descobriu que era apenas ferimentos nos joelhos, um curativo seria suficiente para cicatrizar o ferimento.
Voltaram para casa e a história foi repetida milhares de vezes, as visitas chegavam e logo iam se inteirando do acontecido.
O buraco continuou no morro para sempre, a grama cresceu e ele ficou assim meio disfarçado.
Logo os joelhos da menina se cicatrizaram, o susto fez com que ela passasse a ser muito mais cuidadosa, tanto que só voltou a um hospital para levar algum ponto muitos anos depois, com mais de trinta e cinco anos, dessa vez ela estava com a filha caçula no colo e trupicou numa guia e enfiou o braço numa antena de carro quebrada, a mesma coisa aconteceu, o sangue se espalhou, ela quase desmaiou.

Um comentário:

asnalfa disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
Na hora bate um desespero! Mas depois que passa, a gente ri tanto!
E eu lendo essa historia... to tendo aula de direção. Ja tive 13 e vou precisar de mais algumas!
ahahuahaa