quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nascer Sabendo

Ontem, por motivo de força maior, passei a tarde como acompanhante no Pronto Socorro do Hospital do Câncer Antonio Prudente. Hospital de primeiro mundo, atendimento prá lá delicado e cuidadoso.
A paciente em questão teve o diagnóstico positivo para câncer de mama, já foi operada e agora está em tratamento, já fez três sessões de quimioterapia, está aprendendo a conviver com o sintomas, os enjôos, a náusea e todas as complicações decorrentes próprias do tratamento, inclusive a queda do cabelo.
Comprovamos, que as recomendações devem ser levadas ao pé da letra, a pessoa submetida à quimioterapia fica mais vulnerável, é possível manter uma rotina quase "normal", mas é preciso cuidado. Não ficou comprovado, mas pelo "jeitão" da coisa, ela "pegou" a mesma virose que o filho, essas coisas inevitáveis.
Ela está tratada e as cores voltaram logo que recebeu a medicação e o soro.
Devo lembrar que minha matéria é fraca para essas coisas, mas dessa vez eu mereci uma medalha! Me contive, fiquei firme, agi como uma verdadeira Ana Néri, uma beleza.
Enquanto estive ali pensei em muitas coisas, em primeiro lugar é que ainda há muito preconceito com os doentes, nossa sociedade ainda acredita que o câncer é uma doença desenvolvida pelo paciente! Que horror! Não é, é uma doença que se desenvolve por muitos motivos, mas não a vontade do doente, caso isso fosse verdade toda pessoa com depressão ficaria doente. Isso é uma maneira de afastar os doentes, de mantê-los sob a mira de olhares desconfiados.
Socialmente, de maneira geral e individualmente, particularmente, ainda não sabemos acolher as pessoas que estão em tratamento. Uma mulher careca pode ser considerada agressiva, agressivo é o tratamento, câncer não "pega" como um resfriado, ou uma conjuntivite, apesar da possibilidade do diagnóstico precoce (através de exames periódicos) e o tratamento estar cada vez mais avançado, as pessoas ainda não sabem como agir.
Isso não seria problema se isso não afetasse os pacientes, depois que as cores voltaram, a vontade de conversar também voltou, ela contou que muitas pessoas, ao vê-la careca, vieram conversar, querer saber, muitas contam suas experiências e acolhem com carinho, outras puxam conversa, mas não tocam no assunto, outros, no entanto, não se aproximam.
Antes do cabelo começar a cair, muitas pessoas que souberam de sua condição, tentaram animá-la dizendo que de repente o cabelo não cairia, mas nesse caso, a médica avisou, no décimo quinto dia ele cai, a paciente, inteligentemente, cortou o cabelo curtinho, assim foi fazendo uma adaptação, no dia marcado, ela encontrou, pelo chão da casa tufos de seu cabelo, raspou, então. Escolheu chapéus bonitinhos, ganhou lenços diferentes, mas ela sente calor então ela tira tudo, para a careca respirar, eu dou a maior força, ela tem que se sentir confortável, não precisa ficar preocupada com o que os outros pensam, pensamento é bom por que cada um tem o seu!
Muita gente não gosta de contar que está passando por uma situação dessas, fica receosa, não sabe como as pessoas vão reagir, acho que o paciente não precisa se preocupar com essas coisas, quem deve se preocupar, são todos os outros, temos que aprender com lidar com isso, com a dor do outro, precisamos aprender a sentir a dor do outro, sem passar do ponto e AGIR de maneira humana, é loucura a pessoa acometida por uma doença ter que consolar o outro, saudável e incapaz de se comportar com um mínimo de fineza.
Não nascemos sabendo como agir nessas situações, mas já é hora de aprender, temos que esquecer os velhos modos, aquele que ensinava a não olhar, não falar, fingir, fazer cara de paisagem... feio, né?
As novelas, desde "Laços de Família" vem tocando na questão, nem sempre de maneira positiva, achei o fim da picada aquela cena da Camila raspando o cabelo, deu um sensação de fim-do-mundo, tão pessimista, teve uma outra também, que foi horrível!
Assim como aprendemos a nos comportar usando um celular, a internet, os sites de relacionamento, temos que construir essa nova "etiqueta".

3 comentários:

Bethânia disse...

É tão difícil né? Mas parabéns pelo seu posicionamento. Tá certo! Abraços!

Dinorah disse...

Paola,
Acho um crime dizer que alguém "fez" um cancer - além de todo o infortúnio da doença, o paciente ainda tem que conviver com a culpa de ter criado uma doença destas - não bastasse a genética comprovar o contrário.
Desejo muito muita sorte e saúde para sua amiga.
um abraço
Dinorah

Luciana Kotaka disse...

Oi Paola, é preciso ser muioto corajosa para passsar por essa experiência de acompanhante. Faço muitas coisas que ajudam pessoas, fora do meu trabalho, mas algumas não me sinto preparada. parabéns. Bjks