quarta-feira, 29 de julho de 2009

Catapora a granel

Isso aconteceu de verdade, em 1983. A Chata-de-Galochas ainda não tinha despontado no cenário da minha vida com vigor, era apenas um porvir, ainda engatinhava! Quem diria, hoje ela teria dado todas as coordenadas para a mãe, imagine expor crianças assim!
Eu era professora de uma classe de Jardim II, ou seja, meus alunos tinham cinco anos, minha classe, com quinze alunos era uma classe cheia de vida, com a maioria de meninos, as brincadeiras preferidas envolviam muito contato físico! Era engraçado, era uma classe muito animada, cheia de boas ideias.
Era Agosto, ainda estava frio, os resfriados e as febres se propagavam com razoável facilidade, naquela volta às aulas, todos os dias algum aluno faltou por motivo de doença.
Naquele dia estava marcado o aniversário de uma aluna, convites distribuídos e tudo, a menina amanheceu empipocada, estava com catapora, doença infantil, bem comum de fácil tratamento, altamente contagiosa e na época sem vacina conhecida, apenas o isolamento era confiável.
Nessa escola, dia de aniversário era dia que ninguém levava lanche, a merenda eram os quitutes da festa. A mãe, que já estava com o bolo e toda parafernália pronta para o evento da hora do lanche ligou para a escola propondo uma solução bem caseira: desembarcaria com o carregamento festivo, e a aniversariante para o "Parabéns", festa terminada, recolheria tudo e voltaria para casa para os dias de molho da filha. A escola achou a proposta bem razoável.
Exatamente uma semana depois, uma criança, durante uma atividade começa a reclamar de coceira, ao levantar a camiseta suspeitei daquelas "bolinhas avermelhadinhas" nas costas do guri, veja bem, eu tinha vinte anos e minha convivência com doenças infantis se resumiam às minha experiências pessoais no assunto, a minha catapora, a minha caxumba, etc.
Levei o moleque para os órgãos competentes, a coordenadora da escola, ela não tinha certeza, chamou a diretora que preferiu confirmar com a secretária, que por sua vez chamou a faxineira que tinha muitos filhos e era expert no assunto, era mesmo catapora, quando voltei para a sala, minha auxiliar tinha organizado uma fila para inspeção, havia mais cinco crianças empelotadas, as que ainda estavam livres da contaminação, brincavam de "despedida", beijos e abraços, eles diziam: "até a volta!Vamos sentir saudade".
O resultado foi que num espaço de vinte dias todos os alunos foram acometidos pela tal da catapora. Quando voltavam, ainda apresentavam feridinhas pelo corpo, me coço só de pensar!
Talvez por, naquele tempo, as doenças infantis fossem certeza, ninguém reclamou, aliás, muitas mães torciam para que o filho tivesse a doença enquanto pequeno, para evitar os transtornos da doença em crianças maiores, esse tipo de infecção se complica com a idade.
Tantos anos depois, avaliando a situação, chego à conclusão que o resultado só podia ser esse, que ideia de jerico, essa, expor todas as crianças da escola para agradar uma mãe que não foi capaz de lidar com a própria ansiedade. Algumas escolas pecam por ter essa prestresa em agradar os pai individualmente, em seus caprichos pessoais.
Pensando nisso, acho que é melhor deixar a criançada em casa por mais uns dias. Algumas famílias devem estar, nesse momento, bem alvoroçadas, afinal o quê fazer com as crianças mais quinze dias em casa? A vovó já reservou sua estadia numa clínica de repouso, um mês inteiro com as crianças acabou com sua saúde. A outra vovó, mora muito longe, tia? Todas com o mesmo problema!
Qual a solução? Difícil, hein? No meu caso, meus filhos já sabem se cuidar, me ajudam, mas eu sei muito bem como é difícil esse momento! Já vivi isso muitas vezes! Uma vez eu dei férias para a minha cara-metade, exatamente durante as minhas férias, nada mais justo! Faltava uma semana para o fim das férias, me chamara, eu seria promovida, mas em compensação voltaria ao trabalho imediatamente! As crianças, naquele tempo apenas duas, ainda eram pequenas demais, minha mãe, trabalhava, minhas irmãs, idem, a Léo, a cara-metade de mais de vinte anos da minha mãe, não podia ouvir falar de crianças, ninguém disponível. Nem lembro como resolvi, mas sobrevivemos todos.
Penso que o maior problema nesse caso é a falta de informações confiáveis, a incerteza, como tomar uma atitude pontual se ninguém é capaz de dar informações satisfatórias.
No início da pandemia, pois isso é uma pandemia, nosso querido presidente fez aquele discurso laranja que ele e nós já sabemos de cor: Isso não afetará o Brasil, estamos preparados para enfrentar o vírus da gripe suína (a crise financeira, o caos aéreo, as loucuras da Madona, etc...), acho que ninguém prestou muita atenção, sofremos de "acomodação auditiva" ( quando nos acostumamos com um cheiro, bom ou ruim, a isso é dado o nome de: acomodação olfativa.Eu inventei a acomodação auditiva para os pronunciamentos oficiais) mas agora é preciso agir, de maneira segura equilibrada e prudente, perdemos muito tempo, algumas ações já deveriam ter sido implantadas.
Minha avó contava que antigamente as mães mais cuidadosas, nessa época de frio, amarravam um dente-de-alho no pescoço dos filhos, como um preventivo às doenças, mais provável é que o odor exalado pelo alho funcionasse como repelente, ninguém chegava muito perto, assim, nada de doença!
Por hora, todo mundo tem que se cuidar, ficar quieto, de molho....e esperar , acordar sua Chata-de-Galochas , afinal o senso crítico é um bom escudo!

3 comentários:

asnalfa disse...

hahahhaha
Existe vacina pra catapora? Quase ninguem fala sobre isso. Sequer vacinei nessa ultiam campanha pra Variola. Eu estou fazendo uso de remedios dermatologicos e fiquei com medo de dar alguma reação. Sequer consultei algum medico.

Paola disse...

A minha filha mais nova recebeu essa santa vacina!
Vc não precisa mais tomar vacina a toda campanha, né?
Vc está tomando o Ruacutan? Tá fazendo efeito?

Paola

asnalfa disse...

Nao é pra espinha nao.... é pra outro problema de saude que nao posso falar aqui...