segunda-feira, 13 de abril de 2009

Quatro em um

Algumas palavras só sobrevivem no vocabulário do nosso imaginário e nos exercícios de Matemática da escola.
A Caçula veio com um problema de Matemática para resolver, ela precisava descobrir quantas unidades há em uma groza! Gente, groza? Groza é uma palavra que para mim só existe para contar uma única história do repertório genuíno de causos e histórias do meu avô. O pai dele era gêmeo, os dois viveram a vida toda na mesma casa, casaram-se (cada um com uma mulher) tiveram filhos, sempre na mesma casa. Era uma casa com dez filhos ao todo, duas mães e dois pais, com certeza era uma casa movimentada e muitas coisas eram feitas a granel, no atacado, sem espaço para o individual, personalizado, fico imaginando as pilhas de roupa para lavar e passar, dignas das lavanderias profissionais .
Dizia ele, que certa vez as duas mães foram a um leilão de coisas apreendidas pela receita federal, ou coisa que o valha, era o começo do século XX, entre todos os lotes elas se interessaram por um em especial, era um lote de meias masculinas. Elas acharam que era uma boa idéia, afinal numa casa com oito homens, umas meias extras era uma boa coisa. Acharam o preço bom, arremataram, o quê elas não sabiam é que levariam para casa uma groza de meias!
Levariam, não, a groza de meias foi entregue de carroça, era meia "pra mais de metro" ! Durante muito tempo eles usaram aquelas meias, inclusive as cor de pele e salmão, era uma groza fechada! Fico imaginando o quanto essas meias renderam, e para encontrar os pares? As duas mães debruçadas na enorme cesta de roupas lavadas, cada uma com um monte de meias para separar!
E a dúvida pairava no ar, quanto será que era uma groza, não perguntei para meu avô, pois pela coisa toda dava para entender que era meia que não acabava mais.
E é ai que meu pai entra nessa história toda, quando eu estava no primário, a professora ensinava a tal da "Matemática Moderna", causa de um monte de problemas, que não eram de Matemática, mas por causa da Matemática. Lá em casa, o bam-bam-bam de Matemática sempre foi meu pai, que estudou na Escola Americana, na mesma que o meu avô, aprendeu a fazer divisão pelo método "Tico-tico-no-fubá", na minha tradução livre, quer dizer, do jeito mais simples possível, sem enrolação, ele também decorou tabuada, até o doze, tudo que não existia na "Matemática Moderna" da minha professora.
Diziam, lá na minha escola que não precisava decorar a tabuada (que mentira! claro que precisava, vai fazer uma conta sem a tabuada na ponta da língua), minha mãe não dava conta de ajudar na lição-de-casa, essa era função do meu pai. Vixemaria! Ele mais discutia a pedagogia da matemática que ajudava a fazer a lição e minha mãe rebatia. Ele resolveu que eu deveria fazer a divisão do jeito dele e decorar a tabuada até o doze. Poderia escrever uma tese de mestrado sobre esse assunto, e olha que eu acho que ensinei direitinho a divisão "pelo método americano" (vocabulário oficial da escola que eu trabalhava) para meus alunos.
No meio dessa confusão que a Matemática Moderna gerou lá na minha casa, um dia eu descobri, groza é uma quantidade, assim como é a cetena, uma maneira de facilitar a vida de quem tem que lidar com grandes quantidades. Para quem usou o material dourado nas aulas de matemática, groza é doze dúzias, ou seria a placa da base 12!
Foi por causa da lição da Caçula que eu lembrei disso tudo, do meu avô e suas histórias mirabolantes, meu pai e toda sua antipatia aos métodos modernos de educacão, e toda ginástica que eu faço para lembrar quanto é 12X12, sem decorar que o resultado é 144!

2 comentários:

Ana Barros disse...

Tem coisa que não muda nunca, né ? Mas sinceramente, se não fosse vc, acho que nunca mais na minha vida eu ouviria a palavra groza. E seu ouvisse, ia achar que era algo como grossa em espanhol (rs)

LuMa disse...

Mais uma que aprendo. E graças à caçulinha! Acompanhar lições-de-casa dos filhos deve te deixar sempre com a memória fresca não é Paola? Beijos!