segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Impotência

Logo que eu casei fomos morar numa rua tranquila, encravada no meio da confusão da cidade, naquela rua haviam duas vilas, transformando o lugar, quase numa aldeia, as crianças ainda podiam brincar na calçada, as mães passeavam com os bebês, todos na rua se conheciam, todos se ajudavam.
Mudou-se para uma das vilas um casal com dois meninos pequenos, como não conheciam a vizinhança, às vezes pareciam estranhos. Logo, todos perceberam, a moça estava grávida, mas alguma coisa não estava certa, ela parecia um tanto assustada.
Nasceram gêmeas. Agora, durante sua licença maternidade, passeia mais com as crianças na rua e aos poucos foi revelando sua história.
Ela e o companheiro haviam comprado a casa e se mudado pois ela estava grávida, o apartamento em que viviam era muito pequeno. O marido, havia sido atropelado e estava em recuperação, recebendo benefícios do INSS.
Um dia, pouco antes das gêmeas nascerem, pediu ao marido que fosse comprar leite, ele saiu de shorts e camiseta, com dinheiro contado, nunca mais ele voltou.
Ela vivia uma vida em suspenso, como não era casada legalmente, não pode registrar as filhas com o nome do pai, não dirigia e não podia vender o carro, conseguia mexer na conta bancária, mas não sabia por quanto tempo.
Ninguém viu, nas redondezas nada de diferente aconteceu, simplesmente ele sumiu, sem documento, sem nada.
Ela, desesperada, se empenhou nas buscas, foi atrás de conhecidos, pediu ajuda para a polícia, mas nada de concreto aparecia. Com medo das consequências, não contou nada no trabalho, tinha medo de ser demitida. A sogra, em determinado momento, passou a duvidar dela, achava que mais coisas tinham acontecido.
Não tinha mais nada em que acreditar, essa moça com seus quatro filhos, o mais velho com quase três anos, tinha que se apegar em alguma coisa.
Ela já seguia a alimentação macrobiótica e se tratava com homeopatia, foi nisso que se apegou, na alimentação macrobiótica e na homeopatia, a médica de toda vida atendia num consultório em Santana, ela ia, levava uma criança de cada vez, era sua maneira de não ceder à impotência que sentia.
Algumas vezes, foi chamada na polícia para algum reconhecimento, mas nunca foi alguma coisa positiva. Sua vida era só a espera, diferente de uma viúva que enterra o marido, ela só podia esperar, pela lei vigente, naquela época, uma pessoa só era dada como desaparecida depois de cinco anos da comunicação do desaparecimento.
Depois que nossa rua foi desapropriada, e cada um dos vizinhos tomou um rumo, perdemos o contato.
No jornal eu li que 1150 brasileiros estão desaparecidos no exterior. Hoje, existem vários sites especializados, é importante todo mundo saber que há onde procurar.

Um comentário:

Milena disse...

Ai que história triste! Que dó dessas crianças... CREDO!

Beijo grande e saudade de passar aqui!