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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Vítimas de nós mesmos

Mais de 500 mortos na região serrana do Rio. São Paulo, Bragança Paulista, Mauá, Atibaia, Jundiaí, Sumaré e São José dos Campos decretaram alerta por chuvas, Franco da Rocha continua sob um mar de lama. Em Minas, mais de setenta cidades também sofrem com as chuvas torrenciais, deslizamentos, desmoronamentos e todo tipo de caos que as chuvas podem trazer .
A catástrofe natural é inevitável, mas a tragédia humana pode ser minimizada, somos reféns de anos e anos de governos inoperantes, burocracia perversa, e discursos paralisantes.
Durante o Regime Militar fomos condicionados a acreditar que o Brasil era o melhor lugar do mundo, quiseram que acreditássemos que não havendo terremotos, vulcões, tornados e outros cataclismas éramos abençoados por Deus. Isso não quer dizer que poderíamos desrespeitar nossa casa, nossa terra.
Essa é uma ideia mais antiga que o Regime Militar, em nosso Hino Nacional podemos criar a imagem de paraíso apenas com uns poucos versos:"... em teu formoso céu, risonho e límpido,...", como se o céu fosse sempre tão amistoso, mas além disso, no Hino, há um verso que eu acho criminoso, é o famoso: "Deitado eternamente em berço esplêndido",... como se a providência divina já tivesse colocado tudo em ordem, aos brasileiro apenas viver o "dolce far niente", afinal "Dos filhos deste solo és mãe gentil...", parece que ninguém vai precisar se esforçar, muita simpatia, muita generosidade e nenhum planejamento. Ficou essa ideia de povo abençoado, onde " em se plantando tudo dá," como se apenas a promessa fosse suficiente.
Somos um povo que não se mobiliza, que aceita desvios de verba, que não cobra autoridades por planejamento e recursos para o desenvolvimento real.
As autoridades brasileiras gostam de palanque em inauguração de ponte, em festa de distribuição de condecoração, mas planejamento, infraestrutura, isso não é com a gente, não!
O Brasil é assolado, ano após ano pelos estragos causados pela chuva, invadimos as encostas, desafiamos a gravidade, não respeitamos o caminho das águas e ingenuamente ainda nos surpreendemos com a força da Natureza.
"Moro num país tropical, abençoado por Deus"- de fato - "E bonito por natureza, mas que beleza", como diz a música de Jorge Ben (antes de ser também Jor).
Já é hora de todos os brasileiros se responsabilizarem, cobrar atitudes condizentes das autoridades competentes, se mobilizarem, cada cidadão tomando para si a responsabilidade de apontar e encaminhar soluções para cada uma das coisas que estão erradas, não é possível aceitar analfabetos, não é possível acreditar que um país rico, que tem milhões de reais para custear as desgraças, não possa ter geólogos trabalhando para monitorar encostas, não possa ter uma linha de crédito para habitação popular de verdade.
Meu desejo é que possamos evoluir e nos transformar em um país realmente grande.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A vida pela televisão

Apesar de todas as promessas de campanha, o Jardim Pantanal está inundado, de novo.
Autoridades "incompetêntes" prometeram drenar o terreno em, pasmem, Abril! Que beleza!
A região serrana do Rio, foi democraticamente assolada pelos deslizamentos (nesse link, a explicação por especialistas) causados pelas trombas d'água, não sobrou nada, tudo foi levado pela lama. Muitos mortos e feridos, alguns resgates milagrosos (o bebê resgatado de um soterramento sem nenhum arranhão, foi salvo pelos braços protetores do pai, a mãe que ao ouvir o deslizamento, acordou os filhos e se protegeu no fundo da casa, nenhum vizinho sobreviveu, a mulher que estava no teto da casa que foi levada pela enchente, resgatada por uma corda jogada de cima de um prédio), muita dor, nenhuma explicação, notícias que se repetem, a Natureza está em seu limite. Desastres como esses vem se repetindo há anos e mais anos.
As emissoras comprometidas com a tragédia, na busca desenfreada por audiência saturam a programação com imagens exclusivas, sem nenhuma edição, são colocados no ar, ao vivo todas as imagens, todas as declarações.
Em meio a tanta calamidade, os repórteres na ânsia de "comunicar" fazem observações inadequadas, perguntas desnecessárias, comentários secundários, hoje, no programa da Ana Maria Braga, uma repórter entrevistava a mulher que salvou a vida dos filhos e perdeu tudo que tinha, a repórter quer uma última declaração: "Apesar de toda essa tragédia você se considera sortuda?". Na Record, enquanto pessoas corriam assustadas, carregando alguma bagagem, a repórter interpela um sobrevivente: "Você só conseguiu salvar isso?","Não", responde o homem, "isso é o que eu consegui receber da Defesa Civil."
Eu entendo que os repórteres também estão assustados e em pânico, mas é preciso ter mais cuidado e respeito com as vítimas.