sábado, 20 de setembro de 2008

Teatro Bianchinni


Crianças costumam ter idéias um pouco atrapalhadas sobre as coisas, escutam uma coisa, não entendem e pronto, a coisa fica atrapalhada para sempre, o Mário Prata já escreveu sobre isso,  não vou ser repetitiva, prometo! 
Entre outras tantas, o Teatro Bianchinni era uma promessa. Eu queria tanto conhecer esse lugar. Me parecia um lugar incrível!
Assim como nunca tinha visto o Papai Noel, mas tinha certeza de sua existência, com o Teatro Bianchinni acontecia a mesma coisa, a diferença é que com o Teatro Bianchinni não tinha data certa.
Mais tarde, passei a acreditar que "Teatro Bianchinni", fosse, não um lugar, mas um momento mágico. Afinal, apesar  das explicações, o tal Teatro não existia, isso era garantido.
Aos poucos, no meio da confusão que são as lembranças da primeira infância, fui construindo  a descrição perfeita do Teatro Bianchinni.
Complexa, mas poderia ser a explicação: estava lá, numa cama sendo arrumada, eu já deitada, o lençol branco, ia e vinha  em ondas de vento, um vento que cheirava a varal. Na casa da Nona, com minha tia-avó e minha avó materna fazendo aquela folia toda, demorei muito a entender, mas é fato, quando minha irmã nasceu, dormi na casa  da minha bisavó. Isso é Teatro Bianchinni.
Outra explicação: Dormir na casa da avó paterna, depois de muita conversa na penumbra, meu avô ia me cobrir, colocava o cobertor bem debaixo do meu ombro, para garantir que eu não sentisse frio durante a noite. Isso  é  Teatro Bianchinni.
Poderia ser também, quando meu pai ia cantar aquelas músicas antigas para nós na hora de dormir. Isso é Teatro Bianchinni.
Uma noite, eu estava dormindo na cama dos meus pais, minha tia aparece para dar um beijo de boa noite, parece que minha mãe estava na maternidade. Isso é Teatro Bianchini.
Toda vez que havia um acontecimento noturno ficava com aquilo na cabeça, será que vamos ao Teatro Bianchinni? Casamento, Bodas de Prata, Ouro ou Diamantes (eu fui em uma!), aniversário do avô, da tia, sempre tive a esperança. Conheci , nesses lugares várias possibilidades de Teatro Bianchinni, afinal, uma hora caíamos pelas tabelas e dormíamos nos sofás e poltronas disponíveis!
A essência do Teatro Bianchinni, para mim, é a sensaçãode prazer, nos instantes anteriores ao sono propriamente  dito.
Teatro Bianchinni era a maneira que minha avó tinha de dizer que era hora de dormir, foi difícil me convencer disso, afinal eu acreditava no teatro! Lembro da alegria que sentia quando ela dizia que era hora do Teatro Bianchinni, a expectativa de sair à noite ( com ela isso era bem possível, ela era festeira, passeadeira, tudo era possível!), ir ao teatro, parecido com o Municipal, mas todo decorado em branco, poltronas, paredes, cortinas, alvas como a neve, grandes lustres de cristal pendentes do teto. Era isso que eu achava que era o tal do Teatro Bianchinni. 
Tantos anos passados, ainda acho que em algum momento vou encontrar o tal Teatro Bianchini da minha avó.

8 comentários:

Anônimo disse...

Que coisa bonita esse post. Tenho certeza de que você já deve ter se deparado com o Teatro Bianchini da sua avó, em todos os momentos de felicidade vivida, ele estava e estará sempre lá.

Patricia Daltro disse...

Apertei a tecla errada!!! Não sou anônimo, rs, sou Patricia Daltro.

Paola disse...

É acho que outro nome para felicidade pode ser Teatro Bianchinni!
bjs
Paola

Milena disse...

Ta! Estou com TPM e quase chorei lendo esse post!
Covardia!

Amei!
beijos

Camomila disse...

Sem comentários, Paola.
Virei fã.

Cristina Sampaio disse...

Você está caminhando bem na feitura de textos, Paola, experimentando a linguagem literária ao contar o que se passa na memória, dando vida às lembranças. Gostei muito.
Beijos

Kenia Mello disse...

Ah, Paola, então tive tanto Teatro Bianchinni na minha infância... Lindo post!

Beijos.

Paola disse...

Obrigada, esse é um daqueles que brotaram, me fizeram me emocionar, lembrando que sou agradecida por ter vivido todas essas coisas, me enchem de felicidade, paz aconchego!

bjs
PAola